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Para que vão servir os escritórios na era da IA?
por Marcos Cesar, Diretor Ocupantes Brasil e Contas Corporativas LATAM
maio 11, 2026
Existe uma inquietação que tem permeado praticamente todas as mesas de decisão estratégica nos últimos meses. A ascensão vertiginosa da Inteligência Artificial e da automação trouxe consigo o receio de que o esforço humano perca a utilidade em diversas tarefas cotidianas. Se a tecnologia está assumindo a gestão das planilhas, a organização dos dados e os processos lógicos, qual o propósito do escritório?
A resposta para essa pergunta exige que abandonemos as suposições e olhemos para a realidade dos dados globais e do comportamento humano.
A Verdadeira Razão do Retorno ao Presencial
O debate sobre o fim do escritório perdeu o sentido diante dos números atuais. O relatório 2026 Global Workplace & Occupancy Insights da CBRE nos diz que a utilização global dos escritórios subiu em 15% nos últimos dois anos, atingindo um patamar robusto em 2026. Este número representa um salto expressivo em relação aos ciclos anteriores e comprova que o retorno ao modelo presencial é um movimento estrutural e consolidado.
As pessoas, contudo, estão retornando com uma motivação radicalmente diferente das décadas passadas. À medida que a IA automatiza grande parte das tarefas operacionais, cresce a importância das atividades humanas que não podem ser replicadas por algoritmos como colaboração, negociação, criatividade, coesão cultural e tomada de decisão coletiva. Por isso, o estudo revela que a colaboração com os colegas é o principal motivo para a ida ao escritório, citado por 68% dos respondentes. O espaço corporativo abandonou o seu papel histórico de centro de processamento de tarefas individuais, no qual os profissionais se isolavam em suas baias. Ele assumiu, em definitivo, a vocação de hub de inovação, mentoria e construção de cultura.
Conforme explorado no insight da CBRE Beyond the Desk: How to Design Offices That Draw Employees In, o desafio prioritário das corporações hoje é criar destinos atrativos, e não apenas dispor estações de trabalho. Trata-se de desenhar ambientes que priorizem experiências e fomentem o senso genuíno de comunidade.
Um outro dado interessante que corrobora com esse novo uso do escritório é a preferência por Activity-Based Workplace (ABW), uma estratégia de design de escritório e cultura organizacional que oferece aos funcionários uma variedade de ambientes de trabalho, cada um projetado para uma tarefa específica, em vez de uma mesa fixa atribuída. Esta realidade cresceu de 17% (2024) para 40% (2026), enquanto modelos focados apenas em concentração caíram de 71% para 42%.
A IA se revela como co‑trabalhador, exigindo redesenho de ambientes e papéis, reforçando uma redefinição do trabalho e, portanto, uma adaptação contínua. Neste contexto, empresas têm entendido que, com a IA assumindo tarefas mecânicas, o escritório se torna o espaço do trabalho estratégico, requalificando seu propósito.
Como consequência, o que observamos nos principais mercados corporativos globais — incluindo São Paulo — é a materialização desse movimento. Empresas estão elevando significativamente seus investimentos em Workplace, disputando espaços de alta qualidade para a instalação de seus novos escritórios, bem localizados e inseridos em regiões com ampla oferta de amenidades, como centros comerciais, gastronomia, academias e serviços variados. 57% valorizam cafés e restaurantes no entorno como amenidades mais relevantes. Além disso, há uma priorização clara por locais que reduzam o tempo de deslocamento e facilitem o commuting, tornando a ida ao escritório mais conveniente e atraente.
A Tecnologia como o Novo Sistema Operacional
É exatamente neste ponto de inflexão que a Inteligência Artificial entra como uma aliada estratégica formidável. O verdadeiro valor da inovação no Real Estate reside na sua capacidade de operar de forma silenciosa e eficiente. O artigo The Role of AI in Workplace Technology destaca que a IA atua hoje como o novo sistema operacional do edifício, uma infraestrutura invisível que otimiza a experiência humana. O mesmo estudo mostra que as empresas mais avançadas digitalmente na gestão do escritório estão utilizando a IA para maximizar impacto em 10 frentes:
- Automação preditiva;
- Sistemas inteligentes de reserva;
- Sensores capazes de mapear padrões;
- Ajustes automáticos de clima, luz e ruído;
- Integração entre dados de ocupação e experiência;
- Suporte cognitivo em reuniões;
- Recomendação automática de ambientes;
- Gestão energética inteligente;
- Segurança contextual;
- Analytics avançado para tomada de decisão
Essa inteligência embarcada antecipa as necessidades dos ocupantes, ajustando dinamicamente como exemplo a climatização com base na ocupação real, gerenciando as reservas de espaços de forma fluida e garantindo que o ambiente responda aos padrões de uso com foco em hospitalidade e sustentabilidade. A máquina cuida da eficiência energética e operacional para que as equipes encontrem o cenário perfeito para criar.
Equidade Híbrida e a Experiência do Colaborador
Essa transformação no espaço de trabalho é tão profunda que 70% dos líderes de Corporate Real Estate já utilizam suas estratégias de tecnologia diretamente para otimizar os portfólios e elevar a vivência do colaborador, um dado vital do nosso levantamento Top 10 Technologies Needed for an Engaging Workplace Experience.
Essa integração tecnológica garante a verdadeira equidade nas reuniões híbridas, um dos maiores desafios do trabalho moderno. Com o uso de displays de altíssima resolução, câmeras com rastreamento inteligente e acústica adaptativa, os participantes remotos e presenciais passam a ter a mesma presença e voz nas decisões estratégicas. A fricção técnica desaparece, dando lugar a interações humanas sem barreiras.
O Novo Paradigma do Flight to Quality
Nesse cenário, o movimento de Flight to Quality ganha um contorno inteiramente novo e sofisticado. As empresas de ponta buscam ativos imobiliários nos quais a infraestrutura tecnológica resolve grande parte da complexidade do prédio. Com o operacional automatizado, as pessoas ganham tempo e liberdade para focar naquilo que os algoritmos ainda não conseguem replicar: o pensamento analítico complexo, a criatividade não linear e a liderança empática.
O escritório moderno tornou-se o palco idealizado para o fator humano, orquestrado com precisão pela inteligência da máquina. O desafio para as lideranças agora é garantir que seus portfólios imobiliários estejam equipados com essa infraestrutura invisível e transformadora, posicionando o local de trabalho como o destino de maior valor agregado para seus talentos.
Artigo publicado originalmente no Metro Quadrado