Blog
O escritório do futuro não é sobre presença. É sobre relevância.
por Davi Lorenzo, Diretor da Área de Serviços aos Ocupantes da CBRE Brasil
setembro 29, 2026
Durante anos, o debate sobre o futuro do escritório foi dominado por uma pergunta: o trabalho presencial ainda faz sentido? Os dados mais recentes da CBRE mostram que essa discussão foi superada. A verdadeira questão agora é outra: as empresas estão criando ambientes que justifiquem o deslocamento e potencializem a produtividade, a colaboração e a inovação?
O 2026 Americas Office Occupier Sentiment Survey da CBRE revela uma realidade clara. O escritório continua muito relevante. Porém, sua permanência no centro da estratégia corporativa dependerá menos da obrigatoriedade da presença e mais da qualidade da experiência oferecida.
Na América Latina, mais da metade das empresas espera que seus profissionais frequentem o escritório quatro ou cinco dias por semana, enquanto cerca de 40% mantêm jornadas presenciais integrais. Além disso, 59% dos ocupantes afirmam que os níveis atuais de ocupação atingiram um estado de estabilidade e um percentual adicional de 29% acredita que a frequência aumentará nos próximos anos.
Esse cenário contrasta com o que ainda é observado em outras regiões das Américas, onde o modelo híbrido permanece mais consolidado. Mesmo assim, nas Américas, 89% dos empregadores exigem ao menos três dias semanais de presença física, reforçando que o escritório segue desempenhando um papel fundamental na cultura corporativa e na geração de valor para os negócios.
O paradoxo é que presença não significa necessariamente qualidade.
Embora os escritórios estejam ocupados, muitos deles não estão entregando uma experiência diferenciada. Na América Latina, 38% das organizações classificam sua experiência de trabalho apenas como mediana em comparação aos concorrentes. Nas Américas, quase metade das empresas considera seu ambiente de trabalho insuficiente para atender às necessidades atuais do negócio.
Esse descompasso expõe um desafio estratégico importante. Durante os últimos anos, muitas empresas direcionaram esforços para otimizar custos e racionalizar espaços. O movimento foi compreensível diante das incertezas econômicas. Contudo, chegou o momento de reconhecer que eficiência operacional e experiência do colaborador precisam caminhar juntas.
A mensagem é simples. As pessoas não retornam ao escritório porque são obrigadas. Elas retornam porque encontram valor.
Outro aspecto que emerge com força é a crescente influência da inteligência artificial no planejamento imobiliário corporativo. A narrativa predominante sugere que a IA tende a reduzir a necessidade de escritórios. No entanto, os dados indicam que esse tema não é tão superficial assim.
Na América Latina, 33% das empresas afirmam que a inteligência artificial já está impactando decisões relacionadas a espaço corporativo, enquanto 67% esperam sentir efeitos concretos nos próximos dois anos. Nas Américas, 23% já observam impactos e outros 30% preveem influência significativa no mesmo horizonte temporal.
Mais importante ainda é compreender a natureza dessa transformação. O principal movimento esperado não é a redução da área ocupada, mas a reconfiguração dos ambientes. Espaços mais flexíveis, multifuncionais, orientados à colaboração e capazes de acomodar equipes dinâmicas passam a ganhar importância. Também cresce a demanda por ambientes especializados, como laboratórios de inovação, centros de treinamento e áreas dedicadas ao desenvolvimento tecnológico.
Em outras palavras, a IA certamente mudará a forma como os escritórios serão utilizados.
Esse processo reforça uma tendência que já vinha se consolidando: a busca pela qualidade.
Os ocupantes estão cada vez mais seletivos. Na América Latina, acesso ao transporte público, disponibilidade de estacionamento e proximidade a serviços e restaurantes aparecem como os fatores mais decisivos na escolha de um edifício corporativo. A ausência desses atributos é suficiente para levar muitas empresas a rejeitarem um ativo, independentemente de outras qualidades do empreendimento.
Da mesma forma, edifícios que oferecem serviços, áreas de convivência, espaços externos, academias e infraestrutura tecnológica robusta tendem a capturar maior interesse dos ocupantes e conseguem sustentar diferenciais competitivos de longo prazo.
Para investidores e proprietários, a conclusão é clara: a chamada "flight to quality" não é uma tendência passageira, mas uma transformação estrutural do mercado. Ativos bem localizados, flexíveis e voltados para a experiência do usuário serão os principais beneficiados na próxima década.
O mercado de escritórios entrou em uma nova fase.
Não estamos mais discutindo retorno ao escritório. Estamos discutindo relevância do escritório.
As empresas e investidores que compreenderem essa diferença sairão na frente. O futuro não pertence aos ambientes que simplesmente acomodam pessoas. Pertence aos espaços capazes de conectar talentos, estimular inovação, fortalecer culturas organizacionais e potencializar resultados.
E isso exige muito mais do que metragem quadrada. Exige estratégia.